
Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar. — Caio Fernando Abreu.

Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia. — Caio Fernando Abreu

- Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
— Caio Fernando Abreu.

Mania de esperar que as coisas sejam dum jeito determinado, por isso a gente se decepciona e sofre. — Caio Fernando Abreu

Nos misturamos confusos, sem nos olhar nos olhos. Evitamos nos encarar por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? Mas, quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro, são de criança assustada esses olhos. Cão batido, rabo entre as pernas. Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras. — Caio Fernando Abreu.

Não diria nada, embora na noite, às vezes, quando vinha, revelasse certas palavras fragmentadas, incompletas, no código baçodos que se foram, que se perdiam para sempre no mundo dos sonhos esquecidos, enquanto ele tentava inutilmente recompô-las na manhã seguinte. — Caio Fernando Abreu

Neste momento, estou todo arrepiado e com muita vontade de chorar. É como se ouvisse outra vez, escondido em meu quarto, com o cheiro forte de um jasmineiro ali embaixo, os discos de música erudita que você ouvia muito alto. Tudo isso me toma agora de novo e é tão mágico que quero agradecer a você a lembrança , tão remota e ao mesmo tempo tão dilaceradamente viva. — Caio Fernando Abreu.

Tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura, loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura. — Caio Fernando Abreu



